domingo, 6 de julho de 2014

Renovação


E de repente tudo se tornou mais leve. Nada mais abala a estrutura da minha vida. Tampei as rachaduras, consertei os trincados, pintei as paredes manchadas e troquei as chaves. Ninguém entra sem bater e só sai quando eu abrir a porta. Todos os meus sonhos estão plantados no jardim, cultivo somente o que embeleza minha alma. Fiz uma faxina, joguei algumas coisas fora, outras se diluíram com o tempo e algumas se perderam no meio da própria bagunça. Renovei os enfeites dos meus sorrisos, mudei os móveis de posição, troquei os lençóis que protegiam a minha paz e aprendi a customizar sentimentos bons. Às vezes eu gosto de olhar pela janela para observar o que acontece lá fora, nas coisas que deixei livres e não voltaram. Reparo nos detalhes, busco a tranquilidade quando percebo o que não me faz falta. Em seguida, ao olhar para o céu eu peço mais espaço para cultivar sementes do bem, mesmo que isso sirva para quem um dia me fez mal. Peço mais calma para chegar e mais delicadeza ao andar. Eu não espero conseguir tudo que desejo, pois aprendi que o que mereço Deus um dia vai me dar. 

Maíra Cintra

terça-feira, 13 de maio de 2014

Das coisas que me cansam.


Cansada dessas coisas miudinhas que me incomodam todos os dias e que mesmo sendo pequenas fazem um estrago enorme dentro mim. Cansada de ser alguém com sentimentos a flor da pele, que mesmo tentando lidar com isso, sente muito. Cansada de a cada decepção esperar de mim uma mudança e saber que muitas vezes é preciso passar várias vezes pela mesma situação para aprender a lidar com isso de verdade. Cansada de me machucar e ter que procurar um remédio para curar a dor, mesma sabendo que algumas coisas não tem remédio. Cansada de saber que certas palavras são feitas de mentiras e não poder dizer o que penso por não ter provas suficientes, mesmo que tendo todas as palavras na ponta da língua. Cansada de ignorar quem me ataca por trás e ter que escutar coisas de quem nunca se interessou em saber sobre as minhas razões. Cansada dessa gente que se faz de vítima, que põe a culpa nos outros e vive como um inocente escondendo seus próprios erros. Cansada dessa gente que reclama da vida por não ter nada do que reclamar e que olha para o próprio umbigo sem perceber o que acontece a sua volta. Cansada dessa gente que vai embora do nada e que depois volta para bagunçar tudo que arrumei no tempo em que fiquei sozinha. Cansada de ter que engolir sapos para manter a pose de pessoa equilibrada e de fingir que não ligo para que os outros falam de mim. Cansada de saber quem é o culpado e ter que escutar que o culpado sou eu mesma que permito que as coisas aconteçam na minha vida. Cansada de ver olhares tristes nas ruas e não ter coragem de perguntar se está tudo bem ou oferecer algo bom, mesmo que por mais simples que seja o meu gesto. Cansada desse orgulho que criei e do muro que construí para me proteger desse sentimento que congelei pelo fato de estar cansada de tudo isso. Por fim, quero descansar em mim para encontrar aquilo que me traga a paz absoluta, mas é quase impossível quando alguns fatos, mesmo que pequenos aparecem do nada e me obrigam a mudar a direção. É preciso desviar até mesmo das coisas que eu não conheço para me prevenir das coisas que não sei como irão ser, se irão passar em vão ou permanecer.   

Maíra Cintra

sábado, 29 de março de 2014

Me vingo sendo feliz.

Acaricio a vida com os olhos, tudo o que for bonito até o que tem de mais feio. As diferenças me fazem perceber como o mundo é injusto e ao mesmo tempo tão perfeito. Reparo nos detalhes, onde quase ninguém chega, aquilo que quase ninguém vê. Mas sou dura, sou firme e ao mesmo tempo me derreto em pensamentos doces que somente eu posso entender. 
Não me acho muito digna de elogios, nem sei me comportar diante deles. Mas não sou nenhum pouco daquilo que falam e querem que eu seja diante dos olhos de quem não me conhece. Esse mundo é vasto demais para falar das coisas e pessoas com pura convicção. Gosto do mistério que me rodeia, acho lindo não saber de tudo, de não conhecer todas as coisas e ter uma imaginação que vai além daquilo do que realmente é, de me fantasiar de coisas boas e com aquilo que não existe.
Vez ou outra caio no amargo convívio diário, outras vezes sou totalmente fácil de se entender. Mas existem momentos em que é preciso aproveitar a maldade que o mundo nos oferece de graça. E ainda sim, sou delicada demais para cometer qualquer tipo de agressão física e psicológica em alguém, a minha maior vingança está nas minhas entrelinhas. Me vingo sendo feliz e tenho certeza que mato muita gente por aí. 

Maíra Cintra

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Com o tempo eu aprendi.


Apesar da pressa eu respeito o tempo e mantenho a calma na espera das coisas. Sem querer crio algumas expectativas e com isso só aprendi que a vida nem sempre vai acontecer do jeito que eu quero. Caí várias vezes achando que não conseguiria levantar, levantei várias vezes achando que nunca mais iria cair. A vida foi dando voltas e a cada lugar por onde eu passava aprendi coisas diferentes. Aprendi a não guardar mágoas, mas que livrar de algumas pessoas é necessário para continuar a vida. Aprendi que a maldade está na boca de quem não quer nos ver bem e principalmente aprendi a não absorver isso. Aprendi que a sorte não depende do tempo, mas do que está predestinado a acontecer. Conheci muitas pessoas, umas com conteúdo e outras nem tanto, mas aprendi a respeitar cada uma delas. Aprendi a não julgar sem antes tentar entender a razão do outro. Fui adotada por pessoas maravilhosas, muitas vezes me senti em casa sem estar na minha própria casa. Aprendi a usar meus próprios erros ao meu favor e a importância de cometer erros novos. Aprendi que as pessoas esquecem rápido e foi dessa maneira que aprendi isso também. Aprendi que a saudade torna a presença mais gostosa e que a distância prova quem realmente está por perto. Aprendi que amor é muito mais que sentimento e que carinho vai além das palavras. Aprendi a respeitar as minhas vontades e a dizer "não" quando a minha consciência fala mais alto. Aprendi que ignorar certas atitudes é necessário para o ego e a não me iludir com palavras bonitas. Aprendi que a felicidade verdadeira é aquela baixinha e que a prece mais atendida é aquela que você faz em silêncio. E depois de tudo, aprendi que para aprender tudo isso é preciso perder o medo com o que vem pela frente. 

Maíra Cintra

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Vinte e tantos anos e seus começos.

Nunca pensei tanto em como começar um texto. Talvez seja esse o motivo de não saber por onde começar outras coisas que eu busco em minha vida. Me sinto tão confusa em relação a isso que acabo me perdendo entre os começos, meios e fins. Desaprendi a conjugar o verbo relacionar, já não sei mais como se conquista alguém. Acho que esse meu jeito durona de ser espanta quem vai chegando devagar. Não é fácil ser essa estranha que lava um mundo nas costas e sabe compartilhar de uma maneira mais estranha ainda o que realmente sente. 
Sou tudo o que esses meus vinte e tantos anos me fizeram ser. Já cheguei a pensar que sabia tudo da vida, hoje apenas carrego as minhas razões. Minha coleção de erros faz com que eu tome algumas decisões, nem sempre as mais fáceis, mas de todas as mais sensatas. E foi exatamente assim que fui construindo o meu caráter, dando formato a minha essência, clareando as minhas certezas e definindo a minha ideologia. Aprendi a dar importância nas opiniões contrárias e foi exatamente assim que descobri que a verdade é apenas um ponto de vista.
Algumas coisas já não faziam mais sentido então, resolvi procurar algum sentido para minha vida. Fui tentar mudar, procurar os pedaços que se encaixavam onde já não tinha mais nada. E eu juro, não sabia o tamanho da responsabilidade que me esperava. Fui justa, fui burra e fui cega. Foi difícil carregar um peso enorme nas costas enquanto o mundo me apontava o dedo, me crucificava, me ignorava e ainda tirava um tempo para rirem da minha cara. Mas fui forte, fui eu. Ali no meu espaço sem incomodar ninguém eu estava sempre de pé, cabeça erguida e um sorriso enorme no rosto. Com isso aprendi a transformar toda negatividade em fortaleza. 
Já me interessei por caras sem conteúdo. Já disse eu te amo por dizer. Já acreditei que seria para sempre. Já me entreguei a promessas absurdas porque simplesmente não sabia a verdadeira necessidade de mentir. Foi então que aprendi a mentir. De copo em copo fui afogando saudades, bebendo vazios e me preenchendo de realidades. Tentei me apoiar em quem não me dava apoio. Gritei por socorro mas não me deram ouvidos, foi então que fechei os olhos e decidi seguir na escuridão, sozinha, sentindo somente os meus pés no chão e minha alma flutuar. Foi então que comecei a voar e me viciei. E depois de tudo a moça de seus vinte e tantos anos descobriu que para voar é preciso primeiramente aprender a cair.

Maíra Cintra